terça-feira, 31 de agosto de 2010

UM POUCO DE GABRIEL DOURADO


UM CANTO EM SURDINA

Gabriel Dourado

Cidade de minha infância,
Dos meus sonhos de rapaz,
Dos meus primeiros amores

-dize-me agora,
Aonde vais?

Cidade quase sem ruas,
Apertadinhas demais,
Cidade das boemias,
Dos verdes canaviais
(como aquelas...nunca mais!)

Terra do meu romantismo,
Dos engenhos patriarcais,
Do São João de seu Zumba,
Das loas de Inácio Pais,
Das glosas de Mergulhão,
Chico Taboca e Caju,
De seu “Vigário sem crôa”,
Dos coqueiros de Gaibu.

Cidade das serenatas,
Das cantigas ao luar,
Cidade de tanta história
Sem nenhuma prá contar...

Cidade da minha infância,
Dos verdes canaviais
-Minha cidade querida,
Dize-me agora,
Aonde vais?

MEU CAMBUCÁ
Gabriel Dourado

Eu não sonho palácios agressivos,
De colunatas de oiro
De repuxos multicores,
De frisos cintilantes
E mármores nervosos,
Nem grandeza loira de moeda esterlinas,
Nem a glória de ser grande pela vida!

Quero ser simples,
Vivo imaginando uma vida interior,
Uma existência calma,
Despreocupadamente assim,

Numa casinha,
Toda bonitinha,
Toda caiadinha,
Onde existam palmeiras no terreiro
E verbenas florindo no jardim.

Eu quero, meu amor,
Para o futuro,
Ver-te assim
Como um cambucá maduro,
Aromado e saboroso,
Bem pertinho de mim...
1939

DEZ ANOS DEPOIS
Gabriel Dourado

Vem! Dá-me a tua mão. Vamos andar
Por estas alamedas inclinadas.
Ah! Como é bom a gente recordar
Enternecido, as emoções passadas.

Aqui, repara, andamos de mãos dadas,
Tranqüilos, pensativos a sonhar.
Que saudade das nossas caminhadas,
Do teu lenço, de longe, a me acenar...

Rosas, boninas, musgos, trepadeiras,
O mesmo quadro antigo, benfasejo,
A ponte, um rio de altas ribanceiras.

Fecho os olhos, relembro a tua fala,
“a carícia emotiva do teu beijo”,
Teu vestido de renda, cor de opala...
1949

ROMANTISMO
Gabriel Dourado

Num tranqüilo subúrbio da cidade,
Floriu nossa casinha iluminada,
Casa de gente cheia de humildade,
Onde pões tua graça, Flor amada!

Por dentro vivem tuas mãos de fada
Na ternura das coisas. Sem vaidade,
Vais me dando estes cantos de alvorada,
Em vinte anos de angélica bondade.

A casa fica bem numa travessa,
Entre árvores e flores, e mais essa
Harmonia por todos nós sonhada.

Cantando andei por todo esse caminho,
Vivi meu sonho e não vivi sozinho,
Segui teus passos, sem querer mais nada.
1959

GABRIEL DOURADO nasceu na Cidade do Cabo. Era formado em Odontologia, foi casado e pai de cinco filhos. Teve intensa vida intelectual e foi um dos fundadores do Grêmio Literário Cabense, entidade que marcou época na cidade e, pode-se dizer, foi o embrião da Academia Cabense de Letras. Escreveu poemas e sonetos importantes e teve em UM CANTO EM SURDINA o seu mais famoso trabalho literário. Como das outras vezes, estamos oferecendo aos nossos leitores a oportunidade de conhecer de perto um dos grandes poetas e intelectuais do passado de nossa cidade.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

SEXTA DE LETRAS


Será nesta sexta-feira, dia 6 de agosto, às 19 horas, o lançamento do Projeto "SEXTA DE LETRAS", da Academia Cabense de Letras. O evento acontece na Câmara de Vereadores do Cabo e se repetirá toda primeira sexta-feira de cada mês.


O Projeto abre as portas das reuniões da Academia, possibilitando à população conhecer as reuniões dos acadêmicos. Na primeira sexta, dia 6 de agosto, haverá palestra do Acadêmico Nelino Azevedo, sobre "A Educação Libertadora de Paulo Freire" e um debate entre os acadêmicos e um espaço que será dedicado à participação do público.

A programação até Dezembro de 2010 é a seguinte:

6 de agosto: A EDUCAÇÃO LIBERTADORA DE PAULO FREIRE (Nelino Azevedo)

3 de setembro: A OBRA DE GRACILIANO RAMOS (Douglas Menezes)

1 de Outubro: JOSUÉ DE CASTRO E A GEOGRAFIA DA FOME (Frederico Menezes)

5 de Novembro: A OBRA DE PAULO CULTURA (Natanael Lima Júnior)

3 de Dezembro: ESPERANTO LÍNGUA INTERNACIONAL (Vera Rocha.

terça-feira, 3 de agosto de 2010



sexta-feira, 30 de julho de 2010

FILOSOFIA DA RENASCENÇA

(do século XIV ao século XVI) É marcada pela descoberta de obras de Platão desconhecidas na idade média e de novas obras de Aristóteles, que passam a ser lidas em grego e a receber novas traduções latinas, mais acuradas e fiéis. A época também se dedica a recuperação das obras de grandes autores e artistas gregos e romanos e à imitação deles. São três as grandes linhas de pensamento que predominavam na Renascença: a) Aquela proveniente da leitura de três diálogos de Platão (Banquete, Fédon e Fedro), das obras dos filósofos neoplatônicos e da descoberta do conjunto dos livros do hermetismo ou da magia natural, que se supunham terem vindo do Egito, escritos séculos antes de Moisés e de Platão, ditados por deuses e seus filhos humanos. A natureza era concebida como um grande ser vivo, dotada de uma alma universal (a alma do mundo) e feita de laços e vínculos secretos entre todas as coisas, unidas por simpatia e desunidas por antipatia. O homem era concebido como parte da natureza e como um microcosmo no macrocosmo (isto é, um pequeno mundo que espelha e reproduz a estrutura e a vida do grande mundo, ou o Universo) e por isso pode agir sobre o mundo e por meio de conhecimentos e práticas que operam com as ligações secretas entre as coisas, isto é, por meio da magia natural, da alquimia e da astrologia. b) Aquela originária dos pensadores florentinos, que valorizava a vida ativa (a política) e defendia a liberdade das cidades italianas contra o Império Romano-Germânico, isto é, contra o poderio dos papas e dos imperadores. Na defesa da liberdade política, recuperaram a idéia de República, tal como esta aparecia nas obras dos grandes autores políticos latinos, como Cícero, Tito Lívio e Tácito, bem como nos escritos de historiadores e juristas clássicos e, propuseram a “imitação dos antigos” ou o renascimento de república livre, anterior ao surgimento do império eclesiástico. c) Aquela que propunha o ideal de homem como artífice de próprio destino, tanto por meio dos conhecimentos (astrologia, magia, alquimia), como por meio da política (o ideal republicano), das técnicas (medicina, arquitetura, engenharia, navegação) e das artes (pintura, escultura, poesia e teatro). Essas três grandes linhas de pensamento explicam porque se costuma falar em humanismo como traço predominante da Renascença, uma vez que nelas o homem é valorizado, colocado como centro do Universo, defendido em sua liberdade e em seu poder criador e transformador. A intensa atividade teórica e prática dessa época foi alimentada com grandes descobertas marítimas, que garantiam ao homem o conhecimento de novos mares, novos céus, novas terras e novas gentes, permitindo-lhe ter uma visão crítica de sua própria sociedade. Essa efervescência cultural e política levou a críticas profundas à igreja Romana, culminando na Reforma Protestante, baseada na idéia de liberdade de crença e de pensamento. À Reforma a Igreja Romana respondeu com a Contra-Reforma e com o aumento do violento poder da Inquisição. Os nomes mais importantes desse período são: Dante, Marcílio Ficino, Giordano Bruno, Campannella, Maquiavel, Montaigne, Erasmo, Tomás Morus, Jean Bodin, Kepler e Nicolau de Cusa. Chauí, Marilena; Convite à Filosofia. São Paulo. Atica, 2005.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

UMA ELEIÇÃO MEMORÁVEL

Douglas Menezes
Corria o ano de 1972. Anos de chumbo aqueles daquela década. Tortura, mortes e medo, muito medo. Ser oposição ao regime militar era tarefa para fortes, para as pessoas que possuíam, acima de tudo, uma consciência democrática e capacidade de doação acima de suas conveniências pessoais. Aquelas que são úteis e imprescindíveis porque lutam a vida inteira. São os que sacrificaram a própria vida para que hoje respiremos os ares democráticos da ainda incipiente democracia brasileira.
Pois bem. Naquele ano, haveria eleição para prefeito. Forma que a ditadura encontrou para dar um feitio democrático ao regime de exceção, já que não havia pleito nem para governador, presidente ou governante das capitais. E a cidade do Cabo de Santo Agostinho era uma das mais visadas pela sua importância econômica e, sobretudo, por sua politização e pelo fato representar um dos centros da resistência democrática. Uma cidade em que o governo não admitia sair derrotado.
Já naquela época, o instituto da sublegenda funcionava a todo vapor. Instrumento criado para dificultar o avanço da oposição ao regime, consistia na soma de votos de um partido que poderia eleger um candidato mesmo sendo ele o menos votado. Com isso, o governo lançou, na eleição do Cabo, dois candidatos: José Feliciano de Barros e Vicente Mendes Filho, pela Arena, partido governista; enquanto a oposição ia de Lúcio Monteiro e José Ribeiro de Jesus.
Sem dinheiro, usando um fusca velho e um banquinho para fazer discurso, Lúcio Monteiro conseguiu empolgar o povo, desbravando o caminho para a renovação política do Cabo, além de um aspecto importante: o apelo à conscientização política, abrindo espaço para que o poder econômico influísse menos na eleição. Uma campanha memorável. Lúcio teve mais de cinco mil votos, ganhou do segundo colocado com uma diferença de quase mil e quinhentos votos mas perdeu, porque a soma dos dois candidatos da Arena suplantou sua votação. No entanto, a lição ficou. Uma década depois, um político de esquerda ganhava as eleições no Cabo: Elias Gomes iniciava uma nova era na política cabense.
Os cabenses um pouco mais velhos não podem esquecer esse fato histórico. Após o resultado das urnas, Lúcio foi carregado pelas ruas da cidade, nos braços do povo, que gritava seu nome. Há derrotas que de tão emblemáticas parecem vitórias, pelo seu sentido épico, por representarem a possibilidade real de mudança e a chegada de um futuro melhor para as pessoas. Isto aconteceu e eu vi.
Cabo, 28 de junho de 2010.
*Douglas Menezes é membro da Academia Cabense de Letras.
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sexta-feira, 21 de maio de 2010

VOTO DE APLAUSO À CASA DA MEMÓRIA

Casa Grande do Engenho Boa Vista (hoje em ruínas)* No dia do Museu, 18 de maio, a Câmara de Vereadores aprovou, por iniciativa do Vereador Ricardinho, um Voto de Aplausos para o Centro Cultural Casa da Memória, curador e organizador do acervo da Casa da Memória do Cabo de Santo Agostinho, que, apesar da importância do acervo, ainda não foi viabilizada. Segundo Antonino Oliveira Júnior, idealizador do projeto, "A Casa da Memória nada tem a ver com os museus tradicionais, mas, é um organismo vivo, que resgata a história mais antiga e começa a escrever a história contemporânea do município. Infelizmente, o ranço político vem impedindo que ela chegue às mãos do povo cabense".

CELINA DE HOLANDA

Jornalista e poeta, Celina de Holanda Cavalcanti de Albuquerque nasceu no município do Cabo, a 19/06/1915, tendo depois se transferido para o Recife, onde atuou na imprensa. Publicou seus primeiros poemas nos suplementos literários do Jornal do Commercio e Diário de Pernambuco e o primeiro livro (O Espelho e a Rosa) foi editado quando ela tinha 55 anos de idade. Além de participar de várias coletâneas (Palavra de Mulher, A Cor da Onda por Dentro, Antologia Didática de Poetas Pernambucanos, entre outras), sua obra é composta pelos seguintes livros: O Espelho e a Rosa (1970); A Mão Extrema (1976); Sobre Esta Cidade de Rios (1979); Roda D'água (1981); As Viagens (1984); Pantorra, o Engenho (1990); Viagens Gerais, de 1985, coletânea dos livros anteriores e mais os inéditos "Afogo e Faca" e "Tarefas de Ninguém". Morreu no Recife, a 04 de junho de 1999. O LIMITE Vi os que lutam contra a opressão sendo opressores (não há claros limites entre uns e outros) e disse : ai de nós os que comemos juntos, se não partilhamos (só alguns têm certeza da comida sinal forte de felicidade para os que têm fome). Ai de nós por essa consciência de puros sem nada para ser perdoado como o Publicano e o Bom Ladrão. LA LIMITE J’ai vu ces que luttent contre l’oppression étant des oppresseurs (il n’y a pas de claires limites entre les uns et les autres) et il a dit : aie de nous qui mangeons ensemble, si nous ne partageons pas (à peine quelques-uns ont la certitude de la nourriture signe fort de bonheur pour ceux qui ont faim). Aie de nous pour cette conscience de purs sans rien pour être pardonné comme le Publicain et le bon Ladron. (Da antologia bilingüe “Poésie du Brésil”, seleção de Lourdes Sarmento, edição Vericuetos, como nº 13 da revista literária francesa “Chemins Scabreux”, Paris, setembro de 1997.Traduções de Lucilo Varejão, Maria Nilda Miranda Pessoa e outros.) Publicado em setembro de 2008 MERIDIANO Vivemos a grande noite. Cada amor em seu amor se oculta. Quem nos roubou a ternura escondida? O corpo claro e diurno? Como os animais e as crianças um dia a vida será só vida. A PEDRA Nesta mesa o povo está sentado. Não divaga. Tudo o de que necessita é perto e urgente. Frio e direto, toma a pedra que sou e quebra. Vai construir o mundo. "Não sei de muitas vozes poéticas femininas que se equiparem à sua, pela limpidez do sentimento reflexivo e pela discrição da palavra." Carlos Drummond de Andrade “Se apago esta paixão talvez me apague.” Celina de Holanda

sábado, 10 de abril de 2010

UMA NOITE BRILHANTE

Brilhante, é o que se pode dizer do evento promovido pela Academia Cabense de Letras, ontem, 9 de abril, na Câmara de Vereadores. Com o Plenário totalmente tomado por estudantes, professores, artistas e cidadão comuns, a homenagem a Joaquim Nabuco fluiu naturalmente e com o brilho que o homenageado merece. A apresentação do poema ESCRAVOS, de Joaquim Nabuco, pelo ator e poeta Adonis Diordigues, deu início à programação da noite, que teve ainda uma bela apresentação do Grupo de Capoeira Volta que o Mundo dá, apresentando o Maculelê ao som dos atabaques, que deram ao ambiente uma sonoridade afro-brasileira.A Fundação Joaquim Nabuco foi representada oficialmente pelo dr. Humberto França, profundo pesquisador sobre a vida e obra de Joaquim Nabuco. Suas intervenções foram valiosas para a platéia. Os que foram à Câmara tiveram a oportunidade de participar do lançamento do Livro Os Escravos, de Antonino Oliveira Júnior, membro da Academia. O ponto alto do evento aconteceu com a palestra do Jornalista, escritor, poeta, doutor em História, Diretor da Editora Massangana e membro da Academia Cabense de Letras, MÁRIO HÉLIO. Foi o ápice. O tema "Cem anos com e sem Joaquim Nabuco", foi abordado e trocado "em miúdos" de forma brilhante pelo palestrante. Um show de bola, como se diz. No final, foi aberto um debate entre o público, o palestrante e o representante da FUNDAJ.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

ACADEMIA CABENSE DE LETRAS

Palestra com o Jornalista Mário Hélio,
membro da Academia Cabense de Letras Tema: 100 anos com e sem Joaquim Nabuco Em 9 de abril de 2010 - às 19 horas Na Câmara Municipal do Cabo de Santo Agostinho-PE Realização: ACADEMIA CABENSE DE LETRAS

quarta-feira, 24 de março de 2010

CANÇÃO PRA NINGUÉM OUVIR

Por Douglas Menezes

Meus filhos não lerão esta crônica. Minha mulher não lerá esta crônica, muito menos meus irmãos e amigos. Porque ela é uma canção que não interessa a ninguém ouvir. Traz apenas esse silêncio que não diz nada, e me diz tudo. Desprovida de vida sonora, despoetizada da poesia ruidosa de agora. É só um canto de quem não talvez não tenha mais nada a dizer. Ela encerra esse ciclo que preenche o ex-branco dessa página. Letras mortas, onde nem o dono se anima em vivificar. Tem inspiração. Tem sim. Na música de Chico Buarque, que “Chora notas pra ninguém ouvir”. Mas a melodia e o poema do artista é para alguém. Estes escritos, ao contrário, escondem o sentimento, é tímido, traz a manha dos que não querem se mostrar. Final de livro, uma estrada cujo destino é uma reticência ou um ponto sem saída. Nem sequer a dignidade do beco, mas a incerteza dos descaminhados. Um fechar de volume, um não abrir nunca mais. Cortina arriada, portão cerrado. Voz muda. Círculo vazio. Medo medonho de que alguém queira ouvir. Preciso, então, preencher o resto do papel. Concluir a canção. A música que não diz nada. A música tão inaudível que não possui cantor.

"LUA CHEIA

Chico Buarque De Holanda

Ninguém vai chegar do mar nem vai me levar daqui nem vai calar minha viola que desconsola, chora notas pra ninguém ouvir Minha voz ficou na espreita, na espera, quisera abrir meu peito, cantar feliz Preparei para você uma lua cheia e você não veio, e você não quis Meu violão ficou tão triste, pudera, quem dera abrir janelas, fazer serão".

Douglas Menezes é professor, escritor e membro da Academia Cabense de Letras.



quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

CALA BOCA, CALABAR, CALA!

As coisas estavam pretas para o lado dos holandeses, por volta de abril de 1632, quando um soldado de nome Calabar, forte e audaz, trocou de lado, deixando de ser aliado dos portugueses para apoiar os novos senhores de Pernambuco.

Calabar, um mameluco filho de pai português e de mãe indígena, prestou um bom serviço para os invasores durante 3 anos, mas foi um tempinho arrasador para os portugueses e mazombos (leia-se brasileiros). Justiça seja feita, naquela época era normal virar a casaca, mas Calabar estava na hora, local e dia errados! E, ainda, era o Homem que Sabia Demais.

Até hoje muito se especula das razões que levaram Calabar a trair os portugueses. Era um homem inteligente e grande conhecedor da região e era brabo. Lutou ao lado do general Matias de Albuquerque, tendo sido ferido na guerra. Bem. Sabe como é que é.

Traidor pra lá, traidor pra cá, os holandeses olhavam assim de viés para Calabar, que não tava nem ai. Dizem as más línguas que ele tinha matado um mulher que estava lhe enchendo o saco cobrando pensão alimentícia.

Naquela época era enforcamento certo. Outros, piores línguas ainda, disseram que ele devia uma grana preta para os portugueses, e, como os outros invasores tinham um acordo com a Inquisição, Calabar escaferdeu-se. (sim, minha senhora, tanto portugueses como holandeses invadiram o Brasil, ou a senhora não tinha percebido?)

Mas Calabar fez aquele agá com um coronel holandês de nome esquisito (Van Waerdenburch) e o levou por caminhos tortuosos, mas Certos, a saquear Igaraçu (ou Igarassu), que era a segunda cidade mais importante de Pernambuco, por onde boa parte da riqueza de então era transportada.

Um outro coronel, Sigismund von Schoppe, viu ali uma boa oportunidade de ter um bom amigo na pessoa de Calabar, que não era assim tão calado, como se vê.

Do lado de cá, ou do lado de lá, quer dizer, dos portugueses, Matias Albuquerque ficou pê da vida com a "traição" de Calabar, e mandou dizer que tolerava outra "traição" dele, desde que agora, do lado dos portugueses, oferecendo-lhe não só o cargo de agente duplo mas também o perdão pela traição cometida e mais uns trecos aí. Acho que a proposta foi tão mesquinha que Calabar sequer dignou-se a responder, o que deixou Matias mais pê ainda.

De Itamaracá até a fortaleza dos Reis Magos (na cidade hoje de Natal), os holandeses conquistaram tudo fácil fácil, com a ajuda do falante Calabar.

E tem mais: os índios tapuias, famosos e ferozes antropófagos ficaram amigos dos flamengos (não estamos falando do time carioca, estamos falando dos holandeses, que também eram chamados de flamengos), para desgraça dos portugueses (abrindo mais um parênteses: os tapuias eram sanguinários: o cabra ainda tava vivo ainda e eles metiam um troço qualquer na barriga do sujeito, que era aberta, puxavam as tripas e o coração pra fora e deixavam o coitado gritando. Depois, era só fazer uma fogueira massa...).

O lado sul também foi conquistado graças a Calabar, como o forte do Cabo de Santo Agostinho, o que atrapalhou ainda mais a vida dos portugueses. Nessas alturas, tudo que era oficialidade graúda queria ser amigo de Calabar, para usar as informações deste e se locupletarem com as conquistas fáceis. Afinal, o mapa da mina estava com o nosso anti-herói.

O comandante Matias de Albuquerque estava desesperado com o estrago feito com a "traição" de Calabar, esquecendo que oficiais holandeses, alemães, austríacos e de outros povos também tinham passado para o lado dos portugueses. E vice-versa.

De repente, Matias de Albuquerque se lembrou que Calabar fora criado junto com um primo-irmão que agora poderia ser muito útil. De imediato, mandou chamar o parente de Calabar. Prometeu mundos e fundos, desde que, palavras textuais "que lhe faria mercê que o contentasse se pudesse matá-lo em algum ataque". Antonio Fernandes, o tal primo-irmão, nem teve tempo de cumprir a promessa. Morreu na tentativa.

Nesse ínterim, Calabar tornou-se um membro estimado, temido e respeitado no meio dos invasores, parece que até se convertendo à Igreja Católica Reformada. Tanto é verdade, que quando sua esposa teve um filhinho, durante a guerra, a criança foi batizada nessa igreja.

E a turma do puxa-saco se aproveitou: as testemunhas foram o alto conselheiro Servatius Carpentier, o coronel Sigismund von Schoppe, o coronel polonês Chrestofle Arciszewski, o almirante Jan Cornelisz Lichthart e uma senhora da alta sociedade. O pastor oficiante foi provavelmente o Rev. Daniel Schagen. Tudo nos trinques. O menino foi batizado como Domingo Fernandus, filho de Domingo Fernandus Calabara e Barbara Cardoza.

Mas nem tudo que é bom dura muito. Orientados por Calabar, os holandeses continuaram a expansão para o sul e, em março de 1635, atacaram Porto Calvo, a terra natal de... Calabar. Debandada geral. A cidade rendida, quem conseguiu fugir, se mandou para o sul.

O Arraial de Bom Jesus, comandado por Matias de Albuquerque, ficou isolado. A maior miséria. Depois de três meses, o Arraial também caiu. Matias também fugiu para o sul acompanhado de 7 mil moradores que preferiram fugir a se submeterem aos holandeses.

No meio do caminho não tinha uma pedra, e sim Porto Calvo. Matias chegou com aquela galera enorme na pequena cidade de Alagoas (que ainda era território de Pernambuco), que nessa altura estava defendida por apenas 500 homens comandados pelo Major Picard. Matias atacou a cidade, que teve que pedir condições de se render.

Picard, que sabia das coisas, sacou logo que tinha um problemão nas mãos: Calabar. E tentou salvá-lo, conseguindo apenas que ele ficaria "à mercê d'el-rei". Para bom entendedor, meia palavra basta!

Não deu outra: rapidamente foi constituído um tribunal militar, com a sentença de morte pronta (igual ao que fizeram com Frei Caneca). Bastava apenas a formalidade do julgamento. E, no dia 22 de julho de 1635, a sentença foi executada - perdão, Calabar foi executado, cujo corpo sequer foi enterrado. Ficou por ali mesmo.

Os portugueses, que não eram bestas, se mandaram. Comandados por Matias de Albuquerque, fugiram dois dias antes da chegada de uma grande tropa de holandeses que ficaram enfurecidos quando viram os restos mortais de Calabar; afinal este era compadre e amigo dos comandantes que ali estavam, os coronéis Sigismund e Arciszweski (tu ia gosta de ver teu amigo e compadre de noitadas, ali, no chão, morto e fedendo, sem direito a sepultura, ia, ia!?). E assim Calabar foi enterrado com honras militares.

Finalmente calaram a boca de Calabar.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

HISTÓRIA DO CARNAVAL

Claudia M. de Assis Rocha Lima

Pesquisadora

ORIGEM DO CARNAVAL

Dez mil anos antes de Cristo, homens, mulheres e crianças se reuniam no verão com os rostos mascarados e os corpos pintados para espantar os demônios da má colheita. As origens do carnaval têm sido buscadas nas mais antigas celebrações da humanidade, tais como as Festas Egípcias que homenageavam a deusa Isis e ao Touro Apis. Os gregos festejavam com grandiosidade nas Festas Lupercais e Saturnais a celebração da volta da primavera, que simbolizava o Renascer da Natureza. Mas num ponto todos concordavam, as grandes festas, como o carnaval, estão associadas a fenômenos astronômicos e a ciclos naturais. O carnaval se caracteriza por festas, divertimentos públicos, bailes de máscaras e manifestações folclóricas. Na Europa, os mais famosos carnavais foram ou são: os de Paris, Veneza, Munique e Roma, seguidos de Nápoles, Florença e Nice.

CARNAVAL NO BRASIL

O carnaval foi chamado de Entrudo por influência dos portugueses da Ilha da Madeira, Açores e Cabo Verde, que trouxeram a brincadeira de loucas correrias, mela-mela de farinha, água com limão, no ano de 1723, surgindo depois as batalhas de confetes e serpentinas. No Brasil, o carnaval é festejado tradicionalmente no sábado, domingo, segunda e terça-feira anteriores aos quarentas dias que vão da quarta-feira de cinzas ao domingo de Páscoa. Na Bahia, é comemorado também na quinta-feira da terceira semana da Quaresma, mudando de nome para Micareta. Esta festa deu origem a várias outras em estados do Nordeste, todas com características baianas, com a presença indispensável dos Trios Elétricos e são realizadas no decorrer do ano; em Fortaleza realiza-se o Fortal; em Natal, o Carnatal; em João Pessoa, a Micaroa; em Campina Grande, a Micarande; em Maceió, o Carnaval Fest; em Caruaru, o Micarú; no Recife, o Recifolia, já extinto.

CARNAVAL NO RECIFE

Século XVII - De acordo com as antigas tradições, mais ou menos em fins do século XVII, existiam as Companhias de Carregadores de Açúcar e as Companhias de Carregadores de Mercadorias. Essas companhias geralmente se reuniam para estabelecer acordo no modo de realizar alguns festejos, principalmente para a Festa de Reis. Esta massa de trabalhadores era constituída, em sua maioria, de pessoas da raça negra, livres ou escravos, que suspendiam suas tarefas a partir do dia anterior à festa de Reis. Reuniam-se cedo, formando cortejos que consistia de caixões de madeira carregados pelo grupo festejante e, sentado sobre ele uma pessoa conduzindo uma bandeira. Caminhavam improvisando cantigas em ritmo de marcha, e os foguetes eram ouvidos em grande parte da cidade.

Século XVIII - Os Maracatus de Baque Virado ou Maracatus de Nação Africana, surgiram particularmente a partir do século XVIII. Melo Morais Filho, escritor do século passado, no seu livro Festas e Tradições Populares, descreve uma Coroação de um Rei Negro, em 1742. Pereira da Costa, à página 215 do seu livro, Folk-lore Pernambucano, transcreve um documento relativo à coroação do primeiro Rei do Congo, realizada na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, da Paróquia da Boa Vista, na cidade do Recife. Os primeiros registros destas cerimônias de coroação, datam da segunda metade deste século nos adros das igrejas do Recife, Olinda, Igarassu e Itamaracá, no estado e Pernambuco, promovidas pelas irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e de São Benedito.

Século XIX - Depois da abolição da escravatura, em 1888, os patrões e autoridades da época permitiram que surgissem as primeiras agremiações carnavalescas, formadas por operários urbanos nos antigos bairros comerciais. Supõe-se que as festas dos Reis Magos serviram de inspiração para a animação do carnaval recifense. De acordo com informações de pessoas antigas que participaram desses carnavais, possivelmente o primeiro clube que apareceu foi o dos Caiadores. Sua sede ficava na Rua do Bom Jesus e foi fundador, entre outros, um português de nome Antônio Valente. Na terça-feira de carnaval à tarde o clube comparecia à Matriz de São José, tocando uma linda marcha carnavalesca e os sócios levando nas mãos baldes, latas de tinta, escadinhas e varas com pincéis, subiam os degraus da igreja e caiavam (pintavam), simbolicamente. Outros Clubes existiam no bairro do Recife: Xaxadores, Canequinhas Japonesas, Marujos do Ocidente e Toureiros de Santo Antônio.

Século XX - O carnaval do Recife era composto de diversas sociedades carnavalescas e recreativas, entre todas destacava-se o Clube Internacional, chamado clube dos ricos, tinha sua sede na Rua da Aurora, no Palácio das Águias. A Tuna Portuguesa, hoje Clube Português, tinha sua sede na Rua do Imperador. A Charanga do Recife, sociedade musical e recreativa, com sede na Avenida Marquês de Olinda e a Recreativa Juventude, agremiação que reunia em seus salões a mocidade do bairro de São José. O carnaval do início deste século era realizado nas ruas da Concórdia, Imperatriz e Nova, onde desfilavam papangus e máscaras de fronhas (fronhas rendadas enfiadas na cabeça e saias da cintura para baixo e outra por sobre os ombros), esses mascarados sempre se apresentavam em grupos. Nesses tempos, o Recife não conhecia eletricidade, a iluminação pública eram lampiões queimando gás carbônico. Os transportes nos dias de carnaval vinham superlotados dos subúrbios para a cidade. As linhas eram feitas pelos trens da Great Western e Trilhos Urbanos do Recife, chamados maxambombas, que traziam os foliões da Várzea, Dois Irmãos, Arraial, Beberibe e Olinda. A Companhia de Ferro Carril, com bondes puxados a burros, trazia foliões de Afogados, Madalena e Encruzilhada. Os clubes que se apresentaram entre 1904 e 1912 foram os seguintes: Cavalheiros de Satanás, Caras Duras, Filhos da Candinha e U.P.M.; este último criado como pilhéria aos homens que não tinham mais virilidade.

O Corso - Percorria o seguinte itinerário: Praça da Faculdade de Direito, saindo pela Rua do Hospício, seguindo pela Rua da Imperatriz, Rua Nova, Rua do Imperador, Princesa Isabel e parando, finalmente na Praça da Faculdade. O corso era composto de carros puxados a cavalo como: cabriolé, aranha, charrete e outros. A brincadeira no corso era confete e serpentina, água com limão e bisnagas com água perfumada. Também havia caminhões e carroças puxadas a cavalo e bem ornamentadas, rapazes e moças tocavam e cantavam marchas da época dando alegre musicalidade ao evento. Fanfarras contratadas pelas famílias, desfilavam em lindos carros alegóricos.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

PARA NÃO NOS ESQUECERMOS

DOUGLAS MENEZES

Na década de oitenta do século passado, um grupo de jovens aqui do cabo de Santo Agostinho fundou um folheto poético chamado “Para não nos Esquecermos”. Natanael Júnior, Paulo Cultura, de saudosa memória, Antonino Júnior, Frederico Menezes, Gerson Santos, Jeová, entre outros, faziam parte desse trabalho, cuja tentativa maior era resgatar o fazer poético da cidade de Santo Agostinho e avivar a memória dos cabenses para a necessidade de se perpetuar o bem imaterial do município através da arte. Foi uma angustiante busca de se produzir uma “Cantiga para não morrer”, como bem diz o grande poeta Ferreira Gullar. E embora de vida efêmera, a publicação foi um grito, uma chamada de atenção, um incentivo para que não deixássemos de falar, de ter voz, de mostrar à ditadura, principalmente a nível da cidade, que nós estávamos vivos, que tínhamos corações e mentes e, sobretudo, sensibilidade.

Fazíamos parte do grupo e não lembramos bem quem colocou o título tão sugestivo. O certo é que, a partir daquela edição, alguns companheiros não pararam mais de produzir literatura, embora uns tivessem feito um hiato e depois retornado à produção. Parte deles lançou livros, que hoje são antológicos dentro do fazer literário da cidade do Cabo. Natanael Júnior conseguiu a façanha de publicar um livro pelas Edições Piratas, um dos movimentos mais significativos do século vinte na cultura pernambucana. Podemos mesmo dizer que a década de oitenta fez surgir boa parte da hoje Academia Cabense de Letras. Aqueles sonhadores não pleiteavam fama, glória literária, mas apenas um espaço para poder cantar o que a alma implorava.E lembremos: isto ainda na ditadura militar, onde a liberdade de expressão se mantinha cerceada.

Aqueles jovens escritores confirmaram, também, a visão de que se podia fazer cultura sem a tutela do poder público, à época, como hoje, insensível aos bens imateriais de uma comunidade. Mostraram que é possível dizer “as coisas” sem o carimbo oficial” que, muitas vezes, tiram o chance do artista ser realmente livre para realizar seu trabalho. Sua arte sobrevivia da necessidade de produzir esteticamente e de fazer história,deixando claro que a cidade é o povo, com o seu cotidiano sofrido, com sua tradição natural. As pessoas simples é que fazem a historiografia de um lugar, pois o poder é passageiro e muitos dos governantes são jogados apenas no lixo dos anos que se passam.

“Para não nos Esquecermos” teve vida curta, foi sucedido pelo bem mais elaborado “Sol de Versos”, mas, embora quase esquecido, deixou semente e marcou nossa existência. Guardamos suas edições como a um tesouro que não tem preço. Em seu último e eterno número a frase emblemática, que resume o espírito romântico, rebelde, histórico e identificador com a cidade: “Tem Arte e Artistas nas Ladeiras do Cabo de Santo Agostinho”. Lição que os novos deveriam assimilar, pois assusta como, a passos largos, perdemos a identidade e o humanismo. Tornamo-nos cosmopolitas e ricos economicamente, mas estamos esquecendo de beber a água da fonte da espiritualidade que é a cultura. E antes que seja muito tarde, façamos o retorno sem deixar de avançar. Toquemos o presente buscando inspiração no passado “para não nos esquecermos”.

*Douglas Menezes é professor, escritor, tricolor e membro da Academia Cabense de Letras. Janeiro de 2010.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

AH, ESSA CONFUSA MEMÓRIA!

Dona Coló benzia os meninos com espinhela caída e mau-olhado. O pinhão roxo ficava murcho de tanta mazela que os pequenos possuíam. Mas quem diabo botaria mau-olhado num menino magrinho, pálido e perebento? Dona Coló também pisava no pilão secular e torrava o café de cheiro bom que incensava a rua da Aurora e descia pela rua da Matriz. Sinto hoje, ainda, o gosto daquele cheiro: o pretinho forte que povoava a infância de crianças que caminham hoje para a velhice. Alguns agora de passos lerdos,carregando o peso daquele tempo. Dona Coló tirava mau-olhado. Era mãe de Laura, avó de Carlos e respeitada como uma mãe. Heitor Paiva lutou décadas para ser prefeito do Cabo. Quando conseguiu, renunciou pouco depois, em troca de um emprego na secretaria da fazenda do estado. Isto magoou muita gente, mas diziam todos, era ele um homem sério. Meu padrinho Heitor: deu-me a primeira bola de couro, com a qual jogava no campo da ladeira e no campinho de Benedito. Naquela época, o menino sonhava em ser jogador de futebol, coisa que a realidade tratou de sepultar e fazer a criança adulta entender que o decorrer da existência os sonhos vão sendo enterrados. Talvez fosse ator, cantor, compositor:” poeta de pouco brilho, pai de família criada”, já dizia o grande Vinícius de Moraes. O menino dormitava nos braços da mãe e ouvia algazarra de gente que descia a Vigário João Batista. Padre Melo fazia mais uma passeata com os seus camponeses. Tempos de agitação, a cidade na vanguarda dos movimentos sociais. Se a criança no colo da mãe não entendia ainda, depois os mais velhos repassaram a história. Padre Melo, polêmico, mas fundamental em nossas vidas. Levou a geração cabense dos anos sessenta e setenta ao debate, a questionar a vida, a politizá-la e olhar a cidade como um ser vivo, questionador e social. O vigário ajudou muita gente, lutou e criou o bairro São Francisco,quase uma cidade hoje. Contribuiu para a fundação do Abrigo que possui uma das mais belas histórias de solidariedade da Cidade de Santo Agostinho. Não esquecer padre Melo, é não deixar de lembrar esse pedaço que marcou nosso caminho para o desenvolvimento. Professor Daury sacudiu o município: foi candidato a prefeito, perdeu por quarenta e nove votos, não quis recontagem dos votos, seus aliados insistiam que havia fraude e elegante, o mestre aceitou a derrota. A família do menino o apoiou. A criança, mesmo sem entender bem, ouviu a história que o pai, candidato a vice contou. E dizem, o Cabo, nos anos sessenta, deixou de ter um prefeito intelectual e de coração puro. Quatro horas o banho, quatro e meia comprar o pão. Um dia na volta da padaria, já perto de casa, alguém grita: uma bala. Com um martelo, o projétil detonado, a quentura estranha na perna do menino, a bala alojada na coxa. A primeira grande dor, ainda criança. A extração da bala em Recife. O primeiro contato com a violência real. As indústrias chegavam: Coperbo, Brahma, Rhodia. A cidade era só expansão. Começava o final do ciclo de Vicente Mendes, reconhecido pelos mais velhos como um prefeito operoso. Surgia o Ginásio Industrial e a vila Esperança. O menino continuava brincando de artista, barra bandeira, quatro cantos e jogando bola, pensando em ser jogador. Caiu sobre uma lata de conserva e pegou cinco pontos, mais dor para ilustrar a vida. Dona Elzanira era a professora braba, mas boa gente, do grupo escolar Morgado do Cabo, que tinha a porta feito a entrada de um salão de filme faroeste. E o professor Daury tentou de novo e perdeu feio para Zequinha da Bolacha. O Cabo não queria um prefeito intelectual. A mente quer contar mais coisas. Misturada, não consegue articular o que pretende dizer. Bate o sono, mas resiste ainda a memória, em estado de hibernação,imaginando, um dia, talvez, poder falar tudo o que a existência juntou e que teima em se mostrar como cachoeira que desce rio abaixo, sem um rumo certo.

Douglas Menezes é professor, escritor, tricolor e membro da Academia Cabense de Letras.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A REVOLUÇÃO PERNAMBUCANA DE 1817

A Revolução Pernambucana de 1817, que cognamos de Revolução maçônica de Sacerdotes, lutava pela Liberdade, pela dignificação do homem ...

Não podia, portanto, ser indiferente à situação dos desgraçados escravos, esbulhados de sua Liberdade, pelos que se diziam civilizados.

A Maçonaria, promotora do heróico movimento de 1817, despertar vibrante da consciência dos brasileiros, não podia ficar indiferente à escravidão de milhares de infelizes. Certo, teria de enfrentar tenaz oposição dos senhores de escravos mas não podia prescindir do apoio deles. Cumpria proceder com cautela.

Propalaram que a intenção era libertar, em seguida, os escravos. Sem desmentir os seus propósitos, confirmando-os mesmo, os dirigentes do movimento saíram a público e divulgaram a seguinte proclamação.

“Patriotas pernambucanos! A suspeita tem se insinuado nos proprietários rurais: eles crêem que a benéfica influência da presente liberal revolução tem por fim a emancipação indistinta dos homens de cor, e escravos. O Governo perdoa uma suspeita que o honra. Nutrido em sentimentos generosos, não pode jamais acreditar que homens, por mais ou menos tostados, degenerassem do original tipo de igualdade; mas está igualmente convencido que a base de toda a sociedade regular é a invioabilidade de qualquer espécie de propriedade. Impelido destas duas forças opostas, deseja uma emancipação que não permita mais lavrar entre eles, o cancro da escravidão; mas deseja-a lenta, regular, legal”.

Aí está clara, sem titubeios, um dos objetivos principais da Revolução “.... deseja uma emancipação que não permita mais lavrar entre eles, o cancro da escravidão ...”

Houve a afirmação de que havia a intenção de abolir a escravidão. Uma vez mais, a Maçonaria estava, indômita, lutando pela Liberdade do Homem ...

Luiz Alves Lacerda – Foi Escritor Pesquisador e Historiador cabense. Atual patrono da Cadeira nº 09 da Academia Cabense de Letras

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

GRANITO DO CABO DE SANTO AGOSTINHO

GEOLOGIA DO GRANITO DO CABO
Há cerca de 102 milhões de anos, a região do Cabo de Santo Agostinho era palco de um intenso magmatismo que deu origem a rochas como traquitos, riolitos, ignimbritos, basaltos e o próprio Granito do Cabo. Essa intensa atividade magmática deixou uma vasta exposição de rochas objeto de inúmeras pesquisas geocientíficas na região. Com relação ao Granito do Cabo, suas rochas podem ser individualizadas em duas fácies a partir de seus aspectos texturais. A principal fácies, dominante no corpo, apresenta-se textura média a grossa, com cor cinza esbranquiçada a rósea. A segunda fácies é representada por autólitos de microgranitos, estes ocorrendo com textura fina e cor cinza, de formas irregulares, sendo mais abundantes na região de talus junto à praia. Em ambas as fácies são identificadas cavidades miarolíticas com diâmetros variando de 0,2 a 0,5 cm, contendo cristais de quartzo bipiramidal e turmalina. A presença dessas cavidades atesta o alojamento do granito a pouca profundidade. A composição modal e as texturas dessas rochas são bastante homogêneas, em acordo com seus aspectos macroscópicos. Predominam rochas hololeucocráticas, de composição álcali-feldspato granítica e textura equigranular. A mineralogia essencial é representada por feldspatos (ortoclásio e plagioclásio) e quartzo. O mineral máfico principal é o anfibólio, ocorrendo ainda como acessórios opacos, alanita, fluorita, apatita, zircão; além de biotita, epídoto e carbonato como secundários. Uma feição marcante é a presença de textura granofírica formada por intercrescimento simultâneo de quartzo e K-feldspato, corroborando com o posicionamento hipabissal deste granito. Algumas amostras de borda do corpo, mesmo sem marca de intemperismo, mostram alterações marcantes nos feldspatos. Os autólitos de microgranito encontrados no Granito do Cabo apresentam mineralogia idêntica a fácies principal do granito.
Ao redor do corpo granítico ocorrem belíssimas praias com destaque para as de Gaibu, Calhetas, Paraíso e Suape. A Praia de Gaibu é uma das mais badaladas do litoral sul pernambucano. Uma das atrações principais é escalar o granito para apreciar um belo visual do mar e para conhecer a Praia de Calhetas. Esta última encontra-se encravada entre rochas do granito e coqueirais. Esta pequena baía é considerada uma das mais belas praias do Brasil sendo procurada para pesca submarina e mergulho. A Praia de Paraíso é a menor da região, com fragmentos de rochas do granito na areia e no mar, tornando a paisagem ainda mais bela. É imperdível observar a paisagem de toda a baía de Suape dos diversos mirantes no local. Por fim, a Praia de Suape mostra águas cristalinas e mornas, sendo o mar pouco profundo e sem ondas, propício para banhos e excelente para os esportes náuticos.
BIBLIOGRAFIAS 1. Geology along the Pernambuco coast south of Recife. Geol. Soc. Amer. Bull., Washington, volume 13, páginas 58-92. Escrito por John Casper Branner, 1902. 2. Prefeitura Municipal do Cabo de Santo Agostinho. Formação Histórica e Geográfica do Cabo. Cabo de Santo Agostinho: Departamento de Estudos Sociais, Secretaria de Educação, 1988. 3. A bacia costeira de Pernambuco. Publicado no Simpósio Nacional de Estudos Tectônicos como Roteiro de Excursão por Mário Ferreira Lima Filho em Recife/PE, 2001. 4. Catálogo Cultural do Cabo de Santo Agostinho - 502 Anos - Ruínas e Monumentos. Organizador: Marcos Ferreira de Moraes, 2002. 5. Guia & Mapa Turísico do Cabo de Santo Agostinho. Prefeitura Municipal do Cabo de Santo Agostinho, 2002. 6. Geologia, Geocronologia, Geoquímica e Petrogênese das Rochas Ígneas Cretácicas da Província Magmática do Cabo e suas Relações com as Unidades Sedimentares da Bacia de Pernambuco (NE do Brasil). Tese de Doutorado, Pós-Graduação em Geodinâmica e Geofísica, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 233p. Elaborada por Marcos Antonio L. do Nascimento, 2003. SITES NA INTERNET Exército Brasileiro = http://www.exercito.gov.br/05Notici/VO/174/cbagosti.htm Cidade do Cabo de Santo Agostinho = http://www.cabo.pe.gov.br Diário de Pernambuco = http://www.pernambuco.com/turismo/cabo.html Patrimônio de Pernambuco = http://www.patrimoniope.arq.br/rmr/cabo/cabo.htm Hotel Canarius = http://www.hotelcanarius.com.br/gaibu/turismo_local.htm REFERÊNCIA DESTE TRABALHO Nascimento M.A.L. 2004. Geologia, História e Turismo da região do Granito do Cabo de Santo Agostinho, Pernambuco, NE do Brasil. www. geobrasil.net/geobrasil.htm, excursões virtuais, 6p.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

HÁ 32 ANOS

Não é fácil esquecer o dia 8 de setembro de 1977. Cansados de produzir sem ter apoio do governo municipal, os atores e técnicos da arte cênica do município do Cabo decidiram por abrir a boca e denunciar o descaso. Eram os anos de chumbo da ditadura militar, governando o Brasil com autoritarismo e mão-de-ferro. O medo era a tônica em todos os recantos do país, mas a arte era um dos focos importantes da resistência democrática. E aqui, no Cabo, essa resistência era muito forte, pelo próprio contexto do município, uma célula do esquerdismo e das oposições ao regime. Como era costume na época, os prefeitos da ARENA eram adjuntos, eram braços dos ditadores e perseguiam quem sonhasse em ser diferente. Fazíamos um teatro engajado com as lutas democráticas, com a resistência dos estudantes, ao lado de parte da igreja e de políticos comprometidos. Os Grupos de teatro fundaram a Associação Cabense de Teatro Amador (ACTA), uma entidade que aglutinava e tornava mais forte os ideais dos artistas cabenses. Ninguém agüentava mais o desleixo com a cultura e o descaso com as nossas produções, pois os artistas eram tratados como seres inferiores por eles. Nossa rica produção fazia com que Pernambuco e outros Estados do Nordeste reconhecessem nossos trabalhos: Prostivida, O Santo e a Porca, A Incelença, Os Escravos, Quarto de Empregada, eram algumas das montagens que encantavam o público daqui e de fora. Com a chegada de setembro, a decisão tomada dentro da ACTA: vamos fazer uma passeata (poucos ousavam na época) e denunciar esse descaso através de uma Carta aberta à população. O dia 8 de setembro de 1977 foi escolhido como o Dia D. Logo pela manhã nos reunimos na avenida historiador Pereira da Costa e às 8 horas marchamos para o centro da cidade, distribuindo a Carta Aberta e convocando a população para ser solidária à nossa luta. Em frente à Prefeitura, ocupamos a praça e um banco para fazer, sem som e sem microfone, mas usando técnicas de teatro, um pronunciamento sobre a nossa caminhada de protesto. Incomodado pela ousadia dos jovens cabenses que decidiram fazer das ruas o palco ideal para as lutas contra o autoritarismo tupininquim, o prefeito, que procurava imitar a truculência dos seus “patrões” militares, acionava a polícia para coibir o movimento. Eram dez horas e já estávamos em frente ao prédio onde hoje funciona o teatro Barreto Júnior quando um camburão da polícia civil encostou e os artistas eram jogados dentro do pequeno espaço que servia para amontoar presos. Alguns artistas conseguiram correr, mas 18 deles, dentre os quais falo com orgulho que eu estava, foram presos e levados para a Delegacia local. Foi um dia tenso, com o entra e sai de políticos de oposição e o amontoado de famílias em frente à Delegacia. E todos nós, artistas, trancafiados em celas. 15 homens e 3 mulheres. Bravos jovens, meninas guerreiras, que não recuaram um centímetro sequer de suas convicções, entrando para a história da cidade. Há 32 anos, comecei, também, a olhar de modo diferente para aquela atriz morena, magrinha, ousada. Era Luiza. Enamorados, começamos a percorrer uma bela estrada de amor. Ah...mas isso é outra história. E ela está só começando. Antonino Oliveira Júnior, é escritor, poeta, evangélico da Igreja Batista da Cohab e membro da Academia Cabense de Letras.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

A REVOLUÇÃO PERNAMBUCANA DE 1817

A Revolução Pernambucana de 1817, que cognamos de Revolução maçônica de Sacerdotes, lutava pela Liberdade, pela dignificação do homem ... Não podia, portanto, ser indiferente à situação dos desgraçados escravos, esbulhados de sua Liberdade, pelos que se diziam civilizados. A Maçonaria, promotora do heróico movimento de 1817, despertar vibrante da consciência dos brasileiros, não podia ficar indiferente à escravidão de milhares de infelizes. Certo, teria de enfrentar tenaz oposição dos senhores de escravos mas não podia prescindir do apoio deles. Cumpria proceder com cautela. Propalaram que a intenção era libertar, em seguida, os escravos. Sem desmentir os seus propósitos, confirmando-os mesmo, os dirigentes do movimento saíram a público e divulgaram a seguinte proclamação. “Patriotas pernambucanos! A suspeita tem se insinuado nos proprietários rurais: eles crêem que a benéfica influência da presente liberal revolução tem por fim a emancipação indistinta dos homens de cor, e escravos. O Governo perdoa uma suspeita que o honra. Nutrido em sentimentos generosos, não pode jamais acreditar que homens, por mais ou menos tostados, degenerassem do original tipo de igualdade; mas está igualmente convencido que a base de toda a sociedade regular é a invioabilidade de qualquer espécie de propriedade. Impelido destas duas forças opostas, deseja uma emancipação que não permita mais lavrar entre eles, o cancro da escravidão; mas deseja-a lenta, regular, legal”. Aí está clara, sem titubeios, um dos objetivos principais da Revolução “.... deseja uma emancipação que não permita mais lavrar entre eles, o cancro da escravidão ...” Houve a afirmação de que havia a intenção de abolir a escravidão. Uma vez mais, a Maçonaria estava, indômita, lutando pela Liberdade do Homem ... Luiz Alves Lacerda – Foi escritor, pesquisador e historiador cabense. É o atual Patrono da Cadeira nº09 da Academia Cabense de Letras.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

AINDA BATEM NOSSOS CORAÇÕES

Ao Livrório/Opus Zero Paulo Alexandre da Silva E todos os ch/c/oros Pararam de /en/cantar Porque todas as vozes ficaram emudecidas? E emudecidos choramos Ao desencanto de nossos cânticos de liberdade. Diáspora! Diáspora! E juntos ficamos sem coral Sem pátria e partido Sem amigos Sem filhos Sem pai, mãe, esposa e marido. E minha dialética de poeta Fez dizer-te tudo que "não sabia". E previ o teu, o nosso futuro através de poesias. Escrevi para que os /c/egos (sem Braille) lessem Cantei poemas com um coral de "mudos" Para que todos os "surdos" ouvissem. Contigo, agora nessa multidão de "mudos""Cegos" e "surdos" Caminhando e cantando verde e amarelo... Por que não vens, vamos embora Esperar não é saber?Vivo, vives... Apesar deles Ainda batem nossos corações.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

OS DOIS TEMPOS DA CIDADE

Estou em pé, bem em frente à Igreja matriz. O olhar fixo rumo à estação ferroviária observa o burburinho enlouquecedor de pessoas, carros e motos, em idas e vindas que mais lembram trilhas de formigas a carregarem seus fardos de sobrevivência. Era a antiga rua Antonio de Souza Leão, hoje entregue ao comércio. A rua de seu Alcides, seu Claudino, seu Zequinha da Modelo, de seu João Lopes, do bar de Leo. Ninguém conhece mais ninguém. Ninguém consegue parar. Conversar, nem pensar...mas, ali, eu passava devagar, com meus amigos, vindo do Luisa Guerra e depois do Santo Agostinho...ruas vazias, quietas. As pessoas formigas continuam subindo e descendo. Viro um pouco o corpo e a rua da matriz e a mesma agonia, o burburinho do desce e sobe, dos locutores das lojas. A rua de seu Catarino, seu Joel Alfaiate, a rua de seu Pipiu, seu Duca, de dona Cecita, a casa de seu Tune, de seu Figueiredo, a rua de tanta gente...tá lá um corpo estendido, crivado de balas, a moça que apanha do “seu amor” madrugada a dentro, aos gritos, na minha rua, a rua do garrafão, do barra-bandeira, do cine Santo Antonio, nossa diversão maior... O burburinho continua, ninguém sabe quem é ninguém e eu, em pé, olhando o cenário, ora virado para a estação ora virado para a igreja de Santo Amaro. Aquela mesma rua que foi a passarela dos poemas de Theo Silva, as noitadas de Epitácio Pessoa, as serestas, os desfiles ingênuos do sete de setembro. A minha rua, com um corpo jovem estendido no chão, fuzilado. É só um jovem dos muitos sem assistência, sem lazer, sem horizontes, presa fácil das drogas, destino das balas. A mesma rua do eu menino, com meus amigos, sem medos, sem traumas. Olhei novamente para tudo e senti saudade de mim. Antonino Oliveira Júnior É escritor, poeta e membro Da Academia Cabense de Letras.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

ECOLOGIA SOCIAL EM FACE DA POBREZA E DA EXCLUSÃO

Hoje se fala das muitas crises sob as quais padecemos: crise econômica, energética, social, educacional, moral, ecológica e espiritual. Se olharmos bem, verificamos que, na verdade, em todas elas se encontra a crise fundamental: a crise do tipo de civilização que criamos a partir dos últimos 400 anos. Essa crise é global porque esse tipo de civilização se difundiu ou foi imposto praticamente ao globo inteiro. Qual é o primeiro sinal visível que caracteriza esse tipo de civilização? É que ela produz sempre pobreza e miséria de um lado e riqueza e acumulação do outro. Esse fenômeno se nota em nível mundial. Há poucos países ricos e muitos países pobres. Nota-se principalmente no âmbito das nações: poucos estratos beneficiados com grande abundância de bens de vida (comida, meios de saúde, de moradia, de formação, de lazer) e grandes maiorias carentes do que é essencial e decente para a vida. Mesmo nos países chamados industrializados do hemisfério norte, notamos bolsões de pobreza (terceiromundialização no primeiro mundo) como existem também setores opulentos no terceiro mundo (uma primeiromundizalização do terceiro mundo), no meio da miséria generalizada. As críticas a seguir visam a denunciar as causas dessa situação. Críticas ao modelo de sociedade atual e à ecologia Há três linhas de crítica ao modelo de civilização e de sociedade atual, como foi sobejamente apontado por notáveis analistas. A primeira é feita pelos movimentos de libertação dos oprimidos. Ela diz: o núcleo desta sociedade não está construído sobre a vida, o bem comum, a participação e a solidariedade entre os humanos. O seu eixo estruturador está na economia de corte capitalista. Ela é um conjunto de poderes e instrumentos de criação de riqueza e aqui vem a sua característica básica mediante a depredação da natureza e a exploração dos seres humanos. A economia é a economia do crescimento ilimitado, no tempo mais rápido possível, com o mínimo de investimento e a máxima rentabilidade. Quem conseguir se manter nessa dinâmica e obedecer a essa lógica, acumulará e será rico, mesmo à custa de um permanente processo de exploração. Portanto, a economia orienta-se por um ideal de desenvolvimento material que melhor chamaríamos, simplesmente, de crescimento, que se coloca entre dois infinitos (...): o dos recursos naturais pressupostamente ilimitados e o do futuro indefinidamente aberto para frente. Para este tipo de economia do crescimento, a natureza é degradada à condição de um simples conjunto de recursos naturais, ou matéria-prima, disponível aos interesses humanos particulares. Os trabalhadores são considerados como recursos humanos ou, pior ainda, material humano, em função de uma meta de produção. Como se depreende, a visão é instrumental e mecanicista: pessoas, animais, plantas, minerais, enfim, todos os seres perdem os seus valores intrínsecos e sua autonomia relativa. São reduzidos a meros meios para um fim fixado subjetivamente pelo ser humano, que se considera o centro e o rei do universo. Leonardo Boff (Santa Catarina, 14 de dezembro de 1938, Filosofo e Teólogo), Ética da Vida, Ed. Vozes.